Mostrando postagens com marcador apropriar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador apropriar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

lembranças de um circo cigano madrugada em Paris


Era Paris, inverno de 1996, quando eu ainda tinha cabelos encaracolados. Chovia e eu resolvi passear à pé pela cidade. A cidade esfervecia de atrações culturais e por todo lado podia ver cartazes de espetáculos em turnês. Parei para descansar na escadaria de uma simpática igrejinha. Quando o relógio soou doze badaladas – era meia noite – apareceu na minha frente um carro antigo, com mulheres vestidas com roupas com franjas, cintura baixa e cabelos curtos e homens com fraques e cigarrilhas. Me chamaram para entrar no carro e eu, curiosa, quis saber porque estavam vestidos assim. Entrei no carro e aceitei a taça de champagne que me ofereceram sorridentes. Falavam em francês e tive um pouco de dificuldade para entender – talvez tenham se apresentado com nomes de escritores franceses clássicos. Não entendi direito e ri divertida. Olhamos pela janela e logo na nossa frente estacionava uma caravana de ciganos. Desci do carro quando percebi que estavam montando um pequeno circo de lona vermelho vibrante bem ali na Place Vendôme. Ao redor do circo muitas crianças com lenços coloridos nas cabeças e meninas jovens com saias longas estampadas e camisetas justas, dançando debochadas da chuva que caía. Assisti a essa cena excêntrica e depois percorri o acampamento bagunçado e até um pouco sujo para saber a que horas se apresentariam. Me recebeu um senhor simpático, barrigudo e com um sorriso reluzente (nem tudo que reluz é ouro mas nesse caso era – seus dentes amarelados eram intercalados com dentes cobertos de ouro). Era o dono do circo. Ao lado, sua mulher, com cabelos emaranhados, não tão sorridente, me encarava com desdém. O senhor, que falava alto e em versos, ao saber que eu também era artista de circo, ofereceu-me o bilhete de entrada com muita alegria. Enquanto esperava a hora do show olhava a lona, tão pequena, e ficava imaginando como podia caber um espetáculo ali. De vez em quando, de relance, flagrava uma criança a me olhar com olhos de gato – olhos velhos de quem tem muitas vidas dentro de uma fração de segundo do olhar. Me arrepiava. O cheiro era inesquecível, cheiro forte de bicho. Toda vez que entro em um circo fico tentando imaginar que bicho tem pelo cheiro. De cara identifiquei o cheiro de cabra. O público foi chegando e os artistas recebiam-nos contentes até sentarem-se na platéia. Depois de todos acomodados, apareciam por detrás das cortinas com figurinos com cores fortes e muitos instrumentos. As mulheres sentavam-se uma ao lado da outra com seus bebês no colo e, junto com os músicos, compunham o cenário. Os homens transitavam entre funções do próprio circo, de um lado para o outro, e vez ou outra um entrava para apresentar alguma habilidade. As mulheres tinham cabelos muito longos, a pele morena e todos com fios grossos e negros. Nem todos os homens tinham dentes mas todos sorriam o tempo inteiro. As crianças, olhos de gato e cabelos bagunçados. Todos ficavam no palco, alguns com instrumentos: acordeon, pratos, violão, flautas... a ciganona dona do circo entrou cantando uma música alegre com uma voz imponente, alegre e dura de cigana – a música me arrepiava, me senti como num transe. Todos batiam palmas e dava gritos animados juntos. No intervalo da apresentação, o público sentava em mesas e cadeiras dispostas no palco para comer um sopão preparado pelas mulheres. Alguns números eram realizados por crianças e quando entravam seus pais ficavam perto, amparando. As mulheres, lindas, de cabelos longos e negros e rosto de muitas vidas, faziam seus números com os cabelos soltos, figurinos luxuosos ou com bem pouca roupa, à vontade no picadeiro como se ali almoçassem todos os dias. Os outros, sentados em volta, torciam, cantavam, animavam com gritos e palmas... Um lindo espetáculo com ares felinos e ventos antigos. Saindo dali, continuei meu passeio a pé, menos incomodada com a chuva, com um sorriso debochado de canto de boca e cabelos soltos e encaracolados.

domingo, 6 de novembro de 2011


Depois de uma semana apaixonada em São Paulo, emendamos com a primeira conversa de largada para a montagem do espetáculo.

E, junto com a Raquel, de avião, veio uma proposta. A partir de agora temos de onde partir. A proposta é contemporânea e daí ficamos localizando qual contemporâneo nos interessa. Se vamos falar de nós mesmas, se vamos falar do que somos, do que fazemos e do que nos move. Se vamos ter essa liberdade e se vamos construir o nosso caminho no presente, na sinceridade, no aqui-agora. Se vamos resgatar nossas memórias, o que nos provocou, o que nos apaixonou, o que nos tocou, o que nos fez, o que nos uniu. Sem contemporâneo-forma. Sem fórmula. Do nosso tamanho. O que nos cabe?

Ainda me estranha um pouco falar dos outros. Me apropriar. Apesar de sempre utilizar referencias, inspirações – até que ponto isso pode ser interessante para quem está fora desse universo?

O que mais me cativa é a opção pela simplicidade. Pela poesia da falta de pretensão. Pela busca de uma construção verdadeira, minha.